fevereiro 2011


Sebo do Brechó

Fico honrado em poder contribuir com o Longplay Brasil. Acho uma ótima oportunidade para mostrar a vida dos colecionadores do interior, em óbvia desvantagem em relação aos das capitais.

Mas não estou aqui para depreciar os sebos de Ribeirão. Sejamos realistas: fazemos parte de uma minoria, nós, colecionadores. Mesmo em São Paulo as lojas de alto nível são raras. O que eu quero dizer é que o ‘garimpo’ torna o achado mais prazeroso, por não raras vezes. Lá estava eu, na última fileira de um dos balcões do Sebo do Brechó , me divertindo com o duvidoso critério de organização dos discos, quando me deparei com Summit, de Astor Piazzolla e Gerry Mulligan. O que esta obra-prima estava fazendo na letra F, eu não sei, mas o destino dela foi muito certo: minha prateleira! Isto lá em 2008, ainda…

O cantinho onde a música é degustada com um cafezinho de cortesia costumeira da casa, para os fregueses de verdade.

Sebo do Brechó (hehe) é o nome deste lugar tão cheio de personalidade, encontrado no verdadeiro centrão de Ribeirão Preto. Somos recebidos timidamente, primeiro, pelo Durval – o homem da administração. Somente algum tempo depois pelo Paulão – o homem das vendas – de maneira bem menos contida:

“Já chegou o cara, pão duro do c******”
“Tá vendo com o que eu tenho que negociar?”

Entramos e fomos logo recebidos com Chega de Saudade, de João Gilberto, enquanto um cafezinho era passado na hora. ‘Senta aí que isso é música pra ouvir sentado’, dizia Paulão, enquanto me cerrava um Marlboro vermelho e me alertava para esconder o cigarro caso o Durval chegasse. As poucas palavras trocadas entre os sócios, colegas ou o que quer que sejam, passam sempre longe de cortesias delicadas. Pergunto ao Paulo por que eles trabalhavam juntos, se eram amigos, parentes… “Eu sou a única pessoa que consegue trabalhar com ele”, responde o sujeito sem me deixar nem terminar a pergunta, com humor e gargalhada rotineiros.

Eu, Paulão e uma das pérolas do dia, que inclusive está em 'standby' na vitrola aqui ao lado.

Paulão! Esse figura é o único vendedor da seção de vinis do Sebo do Brechó . Ele não é particularmente um ativista do vinil. “Eu não enxergo mais, fico sofrendo pra colocar na música que eu quero ouvir”. Mas não se pode deixar de notar o carinho que ele tem pela mídia. No próprio dia da visita ao sebo, ele nos contava, com sorriso largo, sobre uma mãe que levou as filhas, ambas com menos de 10 anos, para verem um disco de vinil pela primeira vez, vê-los girar em uma vitrola.

Os achados em vinil do dia foram muitos. Clube da Esquina I impecável; uma maravilhosa coletânea da Sarah Vaughan que gerou o comentário ‘esse cara vai casar com esse disco, já está namorando faz tempo’, tantas foram as vezes que separei este disco mas decidi por comprar outros; além da brilhante e desconhecida Katyna Ranieri, com o disco Girl On The Spanish Steps, para falar apenas dos que eu levei pra mim. Não encontrei sequer uma música deste disco para download ou simples audição na internet, apesar de extensiva procura. Fizeram parte do repertório do dia, também, Chega de Saudade, de João Gilberto; uma interessante coletânea comemorativa dos 25 anos da bossa nova, com faixas interpretadas por Carlos Lyra, em um belíssimo violão; uma maravilhosa coletânea de Benny Goodman, que dispensa apresentações; um divertidíssimo ‘O Melhor de Renato e Seus Blue Caps‘; e, finalmente, um Greatest Hits de Tony Bennett finalizado com um bellíssimo cover de Here, There and Everywhere dos Beatles. É, esse eu vou ter que pegar na minha próxima visita, se ainda estiver por lá!

Paulão organizando os discos.

Fiz fotos por todo o segundo andar do casarão, que é a seção de música e filmes, onde já funcionou um bordel há muito tempo. Há lugares onde reformas são aparentes como na foto ao lado, consequências de um incêndio. É um lugar extremamente peculiar, pois trata-se de um casarão antigo, possivelmente da época áurea do café em Ribeirão Preto, simplesmente lotado até a boca com antiguidades: fitas de vídeo e áudio, cds, discos, toca-discos, ventiladores, livros, jornais de datas emblemáticas como o de anúncio do início da Guerra em 1938 ou com artigos sobre a Guerra no Pacífico colados na parede ao lado de um poster da Sheila Carvalho. Isto sem mencionar o presente que ganhei já há uns 2 anos, que é uma tirinha de jornal que faz da letra de Chega de Saudade uma charge de página inteira.

Não vá ao Sebo do Brechó se você quiser ir a uma loja, estéril, impessoal, um estabelecimento meramente comercial. Este lugar é quase um clube de apreciadores e colecionadores, onde o tratamento e o conhecimento do pessoal (ou da figura) que trabalham são muito superiores ao que você está acostumado a receber. Este certamente não é o lugar pra você procurar aquela versão japonesa de um single raro dos Smiths, mas é um lugar cheio de surpresas: algumas semanas atrás, comprei pelo valor mais do que ridiculamente baixo de 20 reais o Fresh Fruit For Rotting Vegetables, dos Dead Kennedys, uma edição com vinil branco! É uma experiência que vai além de encontrar aquele disco específico que você está procurando, mas também de pegar um disco porque você achou a capa bonita e ter uma das melhores surpresas musicais da sua vida, a tal da Katyna Ranieri! Se não encontrar nada, no dia, tudo bem. Fica a conversa e o cafezinho, assim como um bom motivo pra voltar.

Sebo do Brechó
Rua São Sebastião, 281 e 286
Centro – Ribeirão Preto
(0XX16) 3625-3841 / 3632-1508

Texto por Lucas Paes Leme – Amigo, Colecionador e editor do Anti Determinista (excelente blog sobre música e cultura em geral, feito com a mesma intensidade e qualidade notada na resenha acima – extremamente recomendado!)

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Estamos aqui mais uma vez para divulgar um importantíssimo evento que ocorre todos os meses no grande ABC: A Feira Livre do Vinil de Santo André. Contando com diversos expositores(nas ultimas edições, chegou-se ao incrível número de 21.000 LPs!), o evento só cresce a cada edição e nos brinda com muitas e muitas preciosidades. Seja o que você procurar, lá você terá uma chance única de garimpar, negociar e sair de lá com um grande sorriso e uma bolacha debaixo do braço!

Neste mês teremos a 62ª Edição, que ocorrerá no dia 19/02/2011. Mais informações abaixo:

Para mais informações, visite o blog do amigo Leonardo: Feira Livre do Vinil

Lembrando que um dos sebos presentes é o Museu do Vinil – aquele de que fizemos um especial dias atrás.

A presença do LongPlay é garantida! E a sua é altamente recomendada, compareça!

Igor

Bons amigos,

Trago hoje algo um pouco diferente; Tratarei de duas lojas que, sinceramente, ninguém daria nada por elas. As duas lojas são quase vizinhas em Copacabana, e distoam em muito das outras lojas cariocas que descrevi por aqui. Ambas estão localizadas na mesma galeria, o Shopping Cidade Copacabana, uma galeria que tem de tudo, de cabeleireiros a brechós, de drogarias a lanchonetes.

Antes de tudo, saiba: Para aproveitar a totalidade do que essas lojas oferecem, esteja com a paciência em dia e disposto a sujar as mãos. Literalmente.

Foto: L.O. Matta

L.O. Matta – Rua Siqueira Campos, 143 – Loja 94 – Copacabana

Arregace as mangas e pise dentro da pequena loja. Tente se localizar. Note todas as seções de discos na loja. Acredite, cada uma delas pode te surpreender.

Entrei na loja e fui direto pra seção das bandas internacionais. As letras iniciais do alfabeto não me empolgaram muito; Aparentemente tinha a discografia inteira daquelas bandas que todos os sebos têm: America, Bread, Chicago… É, dei uma desanimada. Mas já que estava lá e com uma tarde inteira pela frente, decidi continuar procurando. Comecei a ficar mais interessado quando notei os preços: São abusivamente baixos! Quase todos os discos são abaixo de 5 reais, desde Lionel Ritchie até Close to the Edge do Yes, um disco vendido facilmente por aí por mais de 15 reais.

Não demorou muito para começar a encontrar as preciosidades do local. Bastou passar pela seção de bandas nacionais que encontro o Criaturas da Noite, da banda O Terço, um disco difícil de ser encontrado e de excelente qualidade. Dei uma olhada na seção de cantoras internacionais e encontro o Court and Spark importado da Joni Mitchell, uma preciosidade do folk. A loja ainda tem uma seção de jazz muito interessante, com discos nacionais e importados de nomes importantes do gênero, como Chick Corea, Miles Davis, etc. Uma das infelicidades foi ter encontrado um álbum do Hermeto Pascoal ao vivo no Montreaux Jazz Festival, mas que estava em estado deplorável. Há ainda várias outras seções, como as de trilhas sonoras, instrumentais, música clássica, etc.

Fique atento ao estado dos discos que for comprar. O cuidado que a loja tem com o seu acervo não é grande, e a maioria está sem plástico ou com plástico em péssimo estado. Ainda assim, vale muito a pena pelos preços baixíssimos e pela quantidade de discos expostos.

Livraria 2005 – Rua Siqueira Campos, 143 – Lojas 41 e 42 – Copacabana

Trata-se de uma loja com características muito similares à descrita acima. Podemos destacar positivamente os preços e a quantidade de discos, mas também devemos mencionar que o estado dos discos nem sempre é satisfatório. No entanto, assim como na L.O. Matta, a visita é muito recomendada, visto que você pode dar a sorte grande e encontrar aquele LP que há tanto procurava por um preço mais que camarada.

Em relação à outra loja da galeria, tive a impressão de que as seções de bandas e cantores internacionais são aproximadamente equivalentes, enquanto a seção de trilhas sonoras é melhor na Livraria 2005. Em contrapartida, temos que os discos de jazz da L.O. Matta são muito superiores aos encontrados nesta loja.

Também não saí de mãos vazias dessa loja; Encontrei um belo exemplar de With a Little Help from my Friends, disco de estréia de Joe Cocker, além de achar a trilha sonora de The Good, the Bad and the Ugly, de Ennio Morricone. Paguei ótimos preços nos dois bolachões.

Resumindo, temos que a visita ao Shopping Cidade Copacabana é um must para os colecionadores e entusiastas do vinil no Rio de Janeiro. Enquanto você pode um dia passar lá e só encontrar os mesmos discos de sempre, outro dia você pode encontrar o Paêbirú sendo vendido a 5 reais.

Tá, talvez forcei um pouco.